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"Responsabilidade Social" só ajuda seus promotores

Por Marcelo Pereira

Infelizmente, as elites que controlam as empresas no país não querem repartir renda. Ganância é ainda uma característica muito frequente entre os gestores brasileiros. Apesar de socialmente reprovada, a ganância não somente existe como é estimulada. Obviamente ela recebe outros nomes mais "bonitos" (garra, força de vontade, ambição, etc.), mas a ânsia de ser melhor e ter mais que os outros é nítida e infelizmente, perene.

Mas a pressão social para que empresários repartam a suas grandes rendas tem feito com que empresas investissem naquilo que elas chamam de "responsabilidade social". É um nome bonito, eu mesmo gosto deste nome, mas a realidade por trás dele é bem menor do que se espera.

Na verdade, ricos não costumam ser generosos. Se fossem generosos, não seriam tão ricos. Mas empresários precisam do prestígio social, pois entram em contato com outras pessoas, que como eles, exigem uma boa imagem e assumir a ganância não parece algo agradável a qualquer mortal, imagine para os homens mais poderosos do Brasil e do mundo.

Assumir a ganância parece coisa de vilão estereotipado de filmes e novelas. Não fica muito bem negociar com alguém quando se tem a certeza de que este é ganancioso. Claro que a ganância não pode ser descartada, pois é ela que garante poder e luxo aos ricos. Mas ela pode ser disfarçada, como falei acima, em valores "nobres" como o "desejo de vencer na vida". Mesmo assim é preciso fingir algum altruísmo para transmitir uma imagem de bondade e com isso, adquirir confiança alheia.

Para isso que surgiu a chamada "Responsabilidade Social". Engana quem pensa que de uma hora para outra, poderosos homens de negócio, com sangue azul ("minha bandeira não será vermelha") e coração de chumbo, resolveram ajudar a sociedade. Nananina! O verdadeiro objetivo por trás da Responsabilidade Social das empresas são dois: 1) Fingir bondade para a opinião pública; 2) Escapar de possíveis processos por danos alheios ou ao meio ambiente.

Uma das provas de que o que estou dizendo aqui é verdadeiro é o modelo escolhido como modelo a ser utilizado para os projetos de Responsabilidade Social, retirado da caridade paliativa praticada por instituições religiosas e ONGs de assistência. Práticas de esporte e dança, ensino mecânico de Português, Matemática e algumas ciências, alimentação básica e orientação para o mercado de trabalho (que evite a formação de lideranças). Nada muito além disso.

Como é uma forma de altruísmo que não interfere no patrimônio dos mais ricos e não muda a estrutura social que garante o poder do empresariado, é a que foi escolhida como modelo de Responsabilidade Social. É bom para quem ajuda pois se encaixa no estereótipo de bondade aceito pelo senso comum. 

Mas não é bom para os auxiliados pois, além de não resolver os problemas de forma mais satisfatória (cavalo dado...), ainda representa um sério risco de lavagem cerebral, pois não raramente este tipo de caridade, por meio da "educação", é uma excelente maneira dos "responsáveis sociais" de inserirem suas convicções particulares para que seus tutelados sigam. É um perigo real e altamente danoso, mas raramente observado.

Mesmo que não haja manipulação ideológica, o modelo assistencial escolhido pelo empresariado, por ser paliativo, é pouco ou nada eficaz. Serve muito mais para que a pessoa ajudada tenha condições de suportar a sua situação que permanece indigna, sem que seus problemas (e os da coletividade) desapareçam de fato. 

Não é interesse do empresariado mudar o mundo e por isso optam por formas de assistência que, pasmem, ajudem o menos possível. Ricos sabem que se o mundo mudar, eles perderão poder e bens. Deixarão de mandar na sociedade, que mudará suas leis e costumes por se sentir mais livre e espontânea, longe da influência discretamente autoritária dos homens de negócio.

Para que as estruturas gananciosas de poder se mantenham, o empresariado decidiu que a Responsabilidade Social não fosse assim tão responsável. E assim será enquanto o empresariado quiser.

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