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A tradição escravocrata de nossos empregadores

Por Marcelo Pereira

A Administração sempre se evoluiu em sua história em prol do bem estar do trabalhador. A realidade provou que a economia dá certo quando empregados são bem remunerados e com condições amplas de consumir. Mas os empresários brasileiros de quaisquer níveis se esqueceram deste detalhe e preferiram exalar o instinto escravocrata marcante das elites tradicionais brasileiras.

Irritados com os benefícios cedidos pelos governos progressistas às classes trabalhadoras quando na verdade deveriam ficar contentes, o empresariado nacional decidiu, em quase unanimidade, elaborar um golpe político que encerrou o ciclo progressista para resultar nisso tudo que estamos vendo: a volta das forças gananciosas no comando do país, alterando as leis para que apenas a elite fosse beneficiada, às custas do prejuízo do resto da sociedade brasileira.

A reforma trabalhista, que considero a pior coisa feita pela gestão golpista de Michel Temer (sob orientação dos capitalistas de linha neoliberal representados pelo PSDB), tratou de consagrar a tradição escravocrata do empresariado brasileiro estipulando liberdade total a patrões que agora poderão cometer abusos com os trabalhadores, exigindo mais trabalho em troca de menos remuneração. Aliás, patrão paga se quiser. Se não quiser, trabalha-se de graça mesmo.

Hoje, o dia em que se comemora 130 anos da Lei Áurea, que a análise histórica revelou não ter sido um ato de altruísmo e sim uma desesperada atitude de se adaptar às necessidades econômicas da época, é um dia em que devemos refletir sobre o fato: a escravidão acabou realmente ou criou nuances mais discretas, criando uma aparência de trabalho remunerado?

Pessoas mais esclarecidas e atentas com a realidade devem ficar com a segunda alternativa, pois é evidente que a escravidão nunca acabou no Brasil. Ela é disfarçada na forma do sub-emprego, com uma remuneração que é precária, mas existente e não havendo, pelo menos de forma clara, a famosa tortura por meio de chicotadas que tanto marcou o período na fase colonial do país.

Todo o sistema criado no Brasil de desenvolvimento profissional é claramente baseado na escravidão, embora todos façam questão de esconder isso das aparências. A meritocracia, lendária tese de que o pobre pode se tornar um magnata por um tempo relativamente longo após o cumprimento de rituais e deveres da rotina profissional, criou uma falsa esperança no proletariado que por muito tempo despertou a crença de uma falsa preocupação social do empresariado brasileiro.

Graças a isso, por muito tempo havíamos acreditado que a escravidão havia sido extinta e impossível de retornar. Pois, com a reforma trabalhista, não somente ela voltou como foi escancarado o ignorado fato de que ela nunca havia acabado.

A revogação da Lei Áurea

No interior do país, a escravidão, como a conhecíamos, nunca havia acabado de fato e a reforma trabalhista criou meios deste tipo de escravidão se regularizar, além de permitir formas brandas de escravidão, praticadas nos centros urbanos, onde trabalhadores se submetem a trabalhos humilhantes durante mais de 10 horas em troca de um lanche de salgado mais refresco por dia. Pode parecer exagero, mas conheço pessoalmente casos que se encaixam nesta descrição.

Os mais realistas já consideram a reforma trabalhista a revogação não apenas da CLT como também da Lei Áurea. Em tempos em que os conservadores já perderam o medo de assumir sua postura anti-humanitária, ficou mais fácil ser escravocrata no começo do século XXI, que pensávamos ser uma época em que a evolução da humanidade acompanharia a evolução tecnológica. Caímos como patinhos acreditando nesta farsa, pois estamos mais medievais do que nunca.

Hoje vemos que necessitamos uma nova Lei Áurea, na forma da revogação desta reforma trabalhista, que de modernização nada tem. Modernizar seria oferecer algo que aumente os direitos dos trabalhadores para que estes possam consumir plenamente e fazer toda a economia fluir com naturalidade. Proteger a ganância dos mais ricos é erro grave que pode assassinar o sistema econômico como um todo, gerando prejuízos a longo prazo até para os magnatas.

Se não revogarmos a reforma trabalhista, há uma certeza: com toda a sociedade brasileira escravizada, teremos uma miséria crônica que reduzirá em massa a população brasileira provocando a desertificação do imenso território de um país, representando na verdade o fim do Brasil. 

Não há meio mais fácil de destruir um país do que destruir uma população inteira condenando-a a uma miséria crônica, para satisfazer as ganâncias de uma elite imediatista que não está disposta a enxergar o futuro. Para o bem de poucos, muitos são prejudicados. Quando isso vai parar?

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