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Nada a comemorar

Por Marcelo Pereira

Hoje deveria ser uma data comemorativa, mas a realidade sugere que temos muito mais a refletir e protestar do que comemorar. Aliás não há motivos para comemorar. 

Os verdadeiros trabalhadores, que pegam no peso, na sujeira e nas dificuldades para ganhar um mísero trocado, nunca tiveram vez e voz no sistema Capitalista, criado para beneficiar apenas quem distribui ordens em troca de imensas fortunas nunca justamente distribuídas. 

Se tem alguém com motivos a comemorar, são os patrões. Isso até a economia mostrar que fracassa quando o poder de consumo da classe trabalhadora se reduz, fechando as portas de inúmeras empresas dependentes da circulação de dinheiro.

As grandes empresas sim, tem que comemorar bastante. Os donos do gigantesco capital são na verdade rentistas e lucram pouco com o movimento da economia. Seus maiores ganhos vem do rentismo, que é a dependência do mercado especulativo (bolsa de valores, juros, ajuda de governos, etc.) e por isso que grandes empresários deram o golpe sem se importar com a destruição da economia. A fortuna que garante suas vidas nababescas não vem da produção. Vem de outras fontes.

Já o trabalhador, coitado. Tradicionalmente sem amparo, com poucas conquistas adquiridas após muita luta, não raramente sangrenta, segue ainda mais miserável, sem salário e sem direitos. A irresponsável Reforma Trabalhista, que na verdade é pró-patronal, reduziu o trabalhador a um equipamento a ser adquirido com o menos custo possível. E equipamento não fala, não tem direitos, não reclama e não merece viver. Se um pifar (morrer), simples: troca-se por outro, ainda mais barato.

Mas trabalhadores são seres humanos. Patrões se esquecem que a Administração sempre se evoluiu ampliando direitos a trabalhadores. Trabalhador feliz produz mais e melhor. Trabalhador é consumidor. Trabalhador ganhando bem, paga bem e movimenta a economia. Todos ganham com o bem estar do trabalhador. Só os empresários brasileiros (os grandes por seres rentistas, os pequenos e médios por serem burros) nunca se lembram deste valioso detalhe.

Hoje estamos com a economia brasileira em frangalhos. Imagine um monte de escombros empilhados aleatoriamente, após a demolição de um grande prédio. Este é o cenário que define a situação de nossa economia liderada por uma horda de irresponsáveis predadores parasitas que passam por cima de tudo e de todos para alimentar sua ainda mais irresponsável ganância.

É um dia muito triste para todos. Empresários de médio e pequeno porte já começam a ter prejuízo. Os grandes e gigantes fogem do país depositando suas fortunas ganhas de modo nem sempre honesto em paraísos fiscais em algum lugar distante. E os trabalhadores seguem convertidos em escravos, tendo que suar mais do que o saudavelmente recomendável em troca de poucos trocados para comer langanhos nada saudáveis.

Triste o nosso cenário. Não sabemos quando terminará. Aliás nem há sinais de que isso terminará. No momento, nada temos a comemorar. Por isso mesmo que o dia do trabalhador cai no mesmo mês em que lembramos da escravidão. Talvez hoje seja de fato o Dia do Escravo. É o que todos nós, que não somos rentistas, nunca passamos de ser.

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