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O perigoso envolvimento de empresas com causas sociais

"Façamos a nossa revolução, antes que os revolucionários as façam", deve dizer cada um dos capitalistas avessos à distribuições de renda mais justas e o fim das classes sociais. Em um mundo regulado pela moral pseudo-altruística mas ainda bastante ganancioso e que acha que os mais ricos são "vencedores justos" de uma "competição" que se inicia logo ao nascer, é preciso crir um falso equilíbrio entre ganância e generosidade.

A partir da segunda metade dos anos 90, as empresas encanaram de se envolver em causas sociais. melhor dizendo, o que as empresas entendem como "causas sociais", geralmente inspiradas na caridade paliativa praticada pelas instituições religiosas. É uma forma de caridade que não melhora a distribuição de renda, não ameaçando a ganância dos mais ricos e a estrutura de poder que os sustenta.

Mas para "ficar bem na foto", agradando a opinião pública e agregando confiança alheia, era preciso que empresários para lá de gananciosos se envolvessem em "causas sociais" antes que os verdadeiros revolucionários, representantes das classes oprimidas as façam. Além de agregar uma imagem de bondade a grandes empresários, serve para acalmar as classes oprimidas e criar um estereótipo de caridade que não ameace a ganância dos mais ricos. Mas tem outro objetivo, oculto e cruel.

Caridade como forma de manipulação ideológica

Há um lado bem cruel na caridade feita pelas classes dominantes. É surreal acreditar que uma pessoa normalmente gananciosa, vai virar generosa de uma hora para a outra, se ela tradicionalmente entende como normalidade em sua vida ter muito mais que os outros, não raramente lucrando com a desgraça alheia.

Eu mesmo suspeito muito de ricaços envolvidos com causas sociais. Quando isso acontece, eu pesquiso detalhadamente sobre este tal generoso para saber se não há terceiras, quartas e quintas intenções por trás dessa generosidade. Claro que há ricos interessados no bem estar social. Mas eles são tão raros como o fato de uma pessoa nascer com um chifre no meio da testa.

Praticamente todas as maiores empresas estão envolvidas com o que elas entendem como "causas sociais". Mas é bom ficarmos atentos. A primeira coisa a lembrar é que elas podem estar se envolvendo apenas para criar uma imagem de responsabilidade social que melhorará o prestígio diante do público, favorecendo maior vendagem de produtos e serviços. Afinal todos gosta de pagar alguém supostamente envolvido com o bem estar alheio.

Além desta necessidade de forjar uma imagem de bondade diante do público consumidor, há outra coisa que poucos observam. Nada impede que generosos empresários se aproveitem da caridade para praticar manipulação ideológica (muito comum) ou até "limpeza social" (raro e extremamente cruel, mas bem possível). Nada é de graça e se uma pessoa normalmente gananciosa faz algo para o outro, ela vai esperar retorno. E muito retorno.

Caridade paga com submissão ideológica ao tutor

Muitas das entidades criadas por empresas e celebridades ricas se aproveitam da responsabilidade social para fazer manipulação ideológica através do que eles chamam de "educação". A meta é fazer com que os tutelados passem a ter o mesmo repertório ideológico de seu tutor. Faz parte do instinto humano querer que os outros pensem de forma igual e a tutelagem é uma excelente forma de fabricar concordantes. "Pense igual a mim e terás o teu benefício", dirá qualquer tutor.

Isso é perigoso e anti-democrático. Mas as nossas elites nunca foram de fato democráticas. A democracia é um bem privatizado e apenas as classes dominantes tem o direito de decidir o que deve ser democratizado ou não. 

A caridade praticada por gananciosos tem um preço e fazer com que tutelados aceite as coisas como seu tutor quer que sejam é um bom modo de pagamento. É cruel e injusto, mas tem sido assim desde que gananciosos decidiram se meter em fazer caridade. E assim será enquanto a ganância não desaparecer do planeta.

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